Nem o fogo brilha tanto

De repente percebi como a força que eu não tenho misturada com a determinação que já doei e o sorriso que enfraqueceu estão achando um lugar cômodo e aquecido dentro de mim. Batalha perdida pelas histórias que contei. Adiantou ter aberto o jogo? Dei a verdade em troca de olhares duvidosos dispostos a me analisar. O disfarce foi deixado para trás, afinal, não precisamos disso. A sinceridade sempre andou do meu lado como uma sombra, e é exatamente isso o que ela está se tornando. Uma sombra que me persegue e me assusta, que me apresenta a tudo aquilo que eu não quero enxergar.

O desgaste está me consumindo, porque o que eu poderia ter tido foi oferecido e jogado na minha cara, e tola fui eu que não aceitei. E agora, que estou disposta a dar tudo o que estiver ao meu alcance, os obstáculos não têm fim. Há alguma lição a ser aprendida aqui? É consequência por eu, naquele único dia em que a moral falou mais alto, ter preferido não arriscar? Porque, honestamente, a dor que eu iria sentir você já me fez sentir. O que eu prezava era o depois, mas ele parece tão distante de chegar. Estou presa no presente pelas cordas e amarras que o relógio já levou. Os traumas que a gente divide… e que ainda te afetam exaustivamente.

Estou cansada de esperar. Voltas e voltas para chegar ao mesmo lugar sem graça. Pedidos afoitos para que algum progresso seja feito, orações isoladas e febris que deveriam ser usadas para outras finalidades, ter que medir palavras e evitar olhares penosos. E se eu quiser contemplar aquele mundo como se ele fosse um grande aquário? Então me deixa sair da mesmice, criar uma história e fingir que tudo é real, vai. É só o que eu preciso nesse momento.

- Lá vem ele.

- Ele é um garoto que brilha muito para você…

I love you in the same way there’s chapel in the hospital
One foot in your bedroom and one foot out the door
Sometimes we take chances, sometimes we take pills.
I could write it better than you ever felt it.
Fall Out Boy @ Hum Hallelujah

Sobre a realidade esquecida e transformada

Eu gosto de fugir.

É um dos meus passatempos preferidos desde o tempo da maria-chiquinha e das sapatilhas coloridas de borracha. Nunca fui o tipo de pessoa acomodada. Pelo contrário, até. Geralmente sou movida pela preguiça, mas, quando ela se torna tão grande a ponto de me deixar profundamente perturbada pela inércia em que me meti, sinto como se estivesse presa por algemas e correntes chamadas Responsabilidade e Dever.

Meu Deus, como crescer é triste. Lembro que ficar entediada, quando criança, não era o problemão que é hoje. Era só fechar os olhos e subitamente eu estava em outro lugar, sonhando com o Peter Pan, voando em cima de um Pterodáctilo e fazendo amizade com os personagens da Caverna do Dragão. Tudo junto, assim mesmo, sem nexo ou regras. A viagem era tão intensa e profunda que eu acaba esquecendo que a Adriana, a garota que sentava na carteira à minha frente na segunda série, roubava meu Mentex na hora do recreio. Tudo virava pó – de Pirlimpimpim, quem sabe? – em meio à diversão. Eu esquecia que aprender tabuada era difícil e como decorar minhas primeiras palavras em Inglês parecia humanamente impossível.

Ah, como eu odiava chamada oral. Era como se os professores sentissem um pervertido e doente tesão em ver criancinhas à beira das lágrimas, as mãozinhas suando e o cérebro, ainda preso no capítulo de Dragon Ball assistido mais cedo na TV, tentando distinguir Dom João de Dom Pedro. Eles eram o quê? Pai e filho? Amigos? Nada com nada? Será que eles também estavam à procura das Esferas do Dragão? Nossa, como eu queria voar em uma nuvem que nem o Goku e ir até o outro lado do Brasil! Eu brisava e nunca prestava atenção. Talvez por isso tenha tirado nota baixa uma vez ou outra. E eu até me deixava abater um pouco por isso, mas aí, num passe de mágica quiçá criado pelos poderes de um duende, eu me desprendia. Irritantemente simples assim.

Hoje, claro, a realidade já tomou conta de meu frágil ser e, toda vez que me permito um afastamento do mundo tangível, sou cercada por lembranças cruéis de como preciso começar a pensar no TCC. Entendem meu sofrimento? É só a minha mente começar a divagar sobre como a nuvem acima da minha casa tem formato de fada que isso me lembra um livro que li, o que me leva a como o mercado editorial no Brasil, apesar de crescente, ainda é preconceituoso e receoso em fazer apostas, o que, por fim, me faz pensar que publicar o meu livro nunca vai dar certo e que talvez seja melhor eu encontrar um emprego em uma livraria, que é o mais próximo da literatura que conseguirei me manter nessa vida.

Ufa. Ser gente grande é complicado. As coisas parecem perder a graça. A noção é forte, a vertigem por sonhar alto demais com os pés no chão é frequente e a imaginação ainda é fértil, mas é interrompida por contas que devem ser pagas, problemas que devem ser resolvidos e dinheiro que precisa ser controlado para que, no fim do mês, eu possa ir àquele restaurante legal vestindo uma nova lingerie sensual para agradar meu namorado, o Príncipe Encantado.

Nessas horas, tudo o que preciso é tentar voltar a ser criança e separar o que é real do que é imaginário. Faz bem, às vezes, sonhar que tenho uma varinha de 30 centímetros feita de corda de coração de dragão. É incrível ver a luz prateada saindo da ponta dela, iluminando um caminho longo e tortuoso à minha frente: o caminho para Avalon. Porque, no fim das contas, isso é o que me espera nos próximos anos. Nas próximas encarnações. Ninguém vive bem se leva tudo a sério, se não vê graça nas coisas mais bobas e passageiras. Tudo está aí para ser resolvido e, de verdade, não é mais legal pensar que um plano maior deixou que meu celular antigo fosse roubado porque o novo contém um aplicativo com um mapa do tesouro escondido?

Um passo de cada vez, na estrada de tijolos amarelos de braços dados com o Homem de Lata…

Sr. Estranho

Um dia desses, fui pega de surpresa na rua por um cabelo bagunçado e dois oxfords de verniz no pé. Não entendo de moda e nunca vou entender, mas oxfords não são uma versão feminina para sapatos sociais? Sei lá. Só sei que ficou bem nele, o tipo de cara moderno que usa gravata fina, ouve bandas velhas descoladas e sabe diferenciar “acender” e “ascender” na hora de escrever. É. Porque ele escreve também. Tem que escrever. Com aquela pinta toda de quem afrouxa o nó da gravata e despeiteia ainda mais o cabelo quando está bravo, de quem diz palavrão nas horas certas e não como se falasse Palavronês…

E foi neste momento que percebi que estava construindo o Sr. Estranho na minha cabeça. Incrível o que uma visão de três segundos pode proporcionar a uma mente vazia e voraz pela sensação inebriante de construir um personagem, não é? Então tá, o nome dele é Jair, mas todo mundo o chama de Jack porque ele não tem cara de Jair. Ele tem 25 anos porque eu gosto de homens mais velhos, é fluente em inglês britânico, dono de dois pastores-alemães, o Mostarda e o Bacon, de um gato preto chamado Trevo e de uma carteirinha da ONG Animais do Bem, que ampara cãezinhos de rua com todo amor e carinho.

Jack é acordado bem cedinho para trabalhar em um escritório na Avenida Paulista por um despertador estridente. Ele pega o metrô e sempre chega no horário – e quando não chega é porque passou um tempo extra me fazendo carinho e tirando a franja da frente do meu olho, me lançando aquele olhar bobo de quem não acredita que está morando com uma mulher incrível como eu. Jack se dá bem com todo mundo lá do RH, mas sabe diferenciar gente decente de vilão. A hora do almoço sempre lhe passa despercebida porque ele fica entretido no serviço, mas ele nunca esquece de mim e costuma me ligar no finzinho da tarde para dizer que logo logo estará saindo e que mal pode esperar para me ver.

Eu? Eu estou em casa. Trabalho como fotógrafa freelance e, às vezes, não tenho muito que fazer. Chato, né? O delivery deve chegar a qualquer momento… eu pedi alguma coisa com lagosta e purê de batatas. Eu não lembro o nome dos pratos em francês daquele restaurante famoso, mas Jack se lembra de todos. Ele é assim, com uma memória absurdamente detalhada capaz de lembrar até mesmo quantos cacos caíram no chão naquela vez em que perdi o controle e joguei a porcelana de minha avó contra a parede azul da sala.

Mas essa boa memória de Jack me incomoda às vezes, devo confessar. Principalmente quando ele senta na beirada da cama e esconde o rosto vermelho pela raiva nas mãos. Quando ele faz isso, eu já sei o que está por vir. Com ódio e repulsa, Jack começa a apontar falhas minhas de alguns meses atrás que ele me prometeu que havia esquecido. Maldito ariano. Ele grita as coisas pra mim e eu as devolvo na mesma moeda: e a vagabunda que você comeu no nosso primeiro mês de namoro?  E o tempo que você me pediu quando tudo estava tão bem? E quando você saiu com os rapazes mesmo sabendo com antecedência da festa de 50 anos da minha mãe? Ridículo. Mas tudo passa; ele sempre enrola a língua quando está alterado demais e é tudo tão engraçado que  nós começamos a rir e, cinco minutos depois, estamos fazendo amor em todos os cantos da casa.

Jack queria ter cinco filhos, mas consegui reduzir o número a dois. Um casal. Uma menina chamada Bianca que vai ser uma princesinha e um menino chamado Nathaniel que será um galã, um filho da puta, um Don Juan inconsequente, mas que saberá dar o valor necessário ao amor de sua vida, quando encontrá-la. Ou encontrá-lo. Não importa; não fazemos este tipo de distinção. Seremos promovidos na mesma época e compraremos uma casa isolada em alguma cidade do interior, para que as crianças conheçam a natureza e deem valor ao que realmente importa. Ensinaremos música, literatura e cultura pop decente para complementar o bom trabalho feito pela escola. Ensinaremos valores e a percepção de como o pôr-do-sol deve ser contemplado, os pingos de chuva sentidos e o chocolate quente saboreado. Nossos filhos saberão quem são Jane Austen, Martin Luther King, Gustave Flaubert e J.M. Barrie, mas também saberão quem são Elton John, Frank Sinatra, J.K. Rowling e Jack Nicholson.

- Moça? Deseja mais alguma coisa? – a mulher do caixa chamou a minha atenção.

Eu desviei os olhos da porta de vidro da farmácia, por onde vi Jack passar naqueles três segundos eternos, e balancei a cabeça.

- Oi? Ah. Não, não… obrigada.

Embolsei o troco e comecei a caminhar num ritmo lento, seguindo os passos do Sr. Estranho pelas ruas que ainda contariam tantas histórias como essa.

Do nunca mais ao fone de ouvido

O que eu estou devendo pra você eu estou devendo pra mim. Você não faz ideia de quantas vezes me equilibrei no meio-fio tentando ligar o movimento retilíneo a qualquer gesto insignificante que pudesse estar ali, pairando, esperando o momento do encontro. E as vezes em que ouvi música analisando os acordes de baixo, tão sucintos mas fazendo toda a diferença, e o modo como a voz arranhava na garganta antes das sílabas melodiosas encherem meus ouvidos de melancolia? Muito tempo passou desde os dias em que eu não lia, apenas virava as páginas carimbadas com letras que contavam uma bela história que não, não tinha nada a ver comigo. Quantas vezes os ponteiros já viraram mesmo? Eu costumava contar, mas hoje já deixei isso de lado. Aquilo tudo me lembra o calor, o sol escaldante, a inocência e a sensação de descoberta de quem me tornei hoje em dia. Tanto tempo perdido pedindo para que funcionasse, desse certo e tomasse forma, sendo que os discos daquelas bandas que você já nem deve ouvir mais eram centenas de vezes mais interessantes. Eu andava nas ruas com a mente longe, conectada a tudo que era passageiro. A banda de Chicago, hoje uma das minhas favoritas, reclamava e dizia verdades nos meus fones de ouvido. O que eu via era sobre mim, o que eu sentia sobre você. Não havia como me desvencilhar da impureza, do interesse e do modo como a verdade que eu já deveria conhecer se apresentou, imponente. Eu não sei sobre o que esse texto é, mas eu definitivamente sei sobre quem escrevo uma vez ou outra. Porque, apesar de todas as dívidas, palavras não medidas, mancadas e deveres não cumpridos, ainda sobra inspiração para escrever. Então sei lá, aqui vai meu obrigada por me ajudar a juntar umas palavras de vez em quando. Pelo menos isso, né?

Fall Out Boy @ Chicago Is So Two Years Ago

Bruscamente

Vovô me abraçou e eu senti o cheiro de nicotina invadir minhas narinas. O melhor cheiro do mundo – era o que meu corpo dizia a cada inalada. Eu o encarei com meus grandes olhos azuis, belamente emoldurados por um cabelo loiro de princesa, e disse que o amava muito. E havia como não amar? Ele fora os pais que eu nunca tive, o pilar que sempre sustentou as cordas bambas e frágeis da minha vida. Eu devia tudo a ele, e acho que ele devia tudo a mim.

- Também amo você, Angel. – ele frisou.

Vovô se recostou na poltrona vermelha e ligou a TV para assistir a algum seriado antigo, daqueles em preto e branco e trilha sonora em várias vozes. A parede da sala, feita de madeira, brilhava com o fogo cintilante da lareira, e eu deitei no tapete de couro de boi diante do sofá para pensar na vida.

Tudo aconteceu rápido demais. Vovô soltou uma exclamação abafada, teve uma convulsão e morreu ali, na nossa poltrona preferida.

Eu olhei de soslaio para o presente ao pé da árvore de Natal que eu abriria assim que a meia-noite chegasse. Vovô nunca saberia o que eu tinha achado do relicário em forma de coração. Ele nunca saberia de nada. Não é horrível ser lembrado da fragilidade humana e do modo como tudo pode acabar em, literalmente, um piscar de olhos?

O fogo crepitou e, do lado de fora da janela quadrada, três flocos de neve caíram devagar.  O silêncio reinou. Eu estava sozinha.