Se você é um amante de livros, com certeza já deve ter pensado isso pelo menos uma vez. Mesmo que tenha sido um pensamento disfarçado, aquele que seguiu a linha do “eu queria tanto passar um dia em Nárnia só para ver como é!”. Não adianta se enganar. Só com essa frase, ou qualquer outra que tenha esse mesmo sentido, você já está provando que, mesmo que por alguns segundos, gostaria de se afastar de tudo o que é real e se perder em um lugar onde tudo é mais divertido. Mais agradável. Mais desafiador. Um lugar para ser feliz, do jeito que você quiser.

Eu já tive essa conversa com minhas amigas e fiquei feliz em ver que não estou sozinha nessa, por mais egoísta que isso possa soar. Coisas da faculdade para fazer, problemas idiotas para resolver, gente chata para aturar… dá vontade de pegar um estojo, meu diário, alguns livros e roupas, jogar tudo dentro da mochila e me perder por aí.

O destino por ser qualquer um. Interior de São Paulo, América Latina, Disney, Europa ou Hogwarts. Tem dias que as coisas estão tão feias que eu aceito até uma estadia em Panem. Desde que a minha mente esteja fresca, desde que eu viva os dias dos meus sonhos.

Tem dias em que eu acordo me sentindo feita para morar na Europa, em uma mansão de luxo com tudo a meu favor. Pode ser no interior da França, em um lugar isolado e aconchegante. Meu cabelo é chanel mesmo… e, quando a cabeleireira acerta o corte e eu consigo me entender com a escova e a chapinha, eu até fico com cara de francesa metida. É só passar um pouco de maquiagem e fazer biquinho que tudo fica resolvido. Às vezes eu quero ser amiga das personagens dos meus livros. Desta vez estamos tomando um café quentinho perto da Torre Eiffel, admirando e apontando alguns franceses bonitos. Seja bem-vindo à minha mente.

Acho que uma das partes mais compensadoras de ser um amante de livros é poder viver várias vidas. Ouvir vários gostos, ler vários sentidos, cheirar várias cores. Sinestesia. Quando leio, sinto na própria pele as angústias dos personagens – assim como também sinto uma explosão arrebatadora de felicidade por algo que custou muito a dar certo. Ao me transportar para a história da vez, posso ser uma heroína ou uma covarde, ter poderes especiais ou ser pateticamente normal, tenho romances com todo e qualquer homem desejável por aí. E é sempre tão bom. Até mesmo quando é ruim eu me sinto bem, como se tivesse aprendido mais uma coisa. Mais uma lição.

Não vou negar. Quando tudo está ruim por aqui, me perder em um livro é o melhor refúgio que eu posso encontrar. E, com certeza, é a melhor escolha. Quem não acha de vez em quando que a ficção é melhor que a realidade com certeza é porque leu todos os livros errados. Histórias que não instigam a imaginação não valem a pena. Até mesmo livros que falam da vida real, quando escritos por alguém que sabe lidar com as palavras, conseguem transportar a mais cinzenta e chuvosa das mentes para um lugar distante.

Eu não vejo problema algum em querer trocar tudo o que é real pela fantasia. Eu vejo problema em quem não consegue fazer isso  nunca.

Lembro até hoje de quando, em uma aula redação, ele me segurou por trás e me abraçou. Foi um dos abraços mais constrangedores que eu já recebi. Eu estava na carteira da frente e ele na de trás, naquela época em que todo mundo da classe torcia para que a gente ficasse junto porque “éramos feitos um para o outro”. O ar-condicionado gelava meu cabelo, minhas roupas, minha espinha. Mas, naquele instante, eu senti calor.

Era o primeiro ano do Ensino Médio. Ele me pediu com tanta vontade para que eu fizesse a atividade com ele que eu tive que dizer a uma das minhas melhores amigas que, nossa!, não ia dar para a gente sentar junto. E tinha como ser diferente? Eu era fraca, uma menininha de quinze anos, bem diferente das mulheres que já existiam na minha classe. Eu ainda sentia meu estômago girar só pelo toque de uma pessoa que eu julgava ser especial. Enquanto eu sentia isso, muitas garotas já tinham transado com vários caras e se decepcionado inúmeras vezes.

Quando viu o que estava acontecendo e se deparou com minhas bochechas coradas, minha amiga girou os olhos devagar e deu um risinho como se dissesse “essas tolinhas apaixonadas”. Eu fiquei tão feliz de poder dividir aquele momento com ele. Era definitivamente mais um passo para que eu conseguisse fazer com que ele se interessasse por mim… não era? Era a chance perfeita para que eu pudesse fazer o elogio certo e tramar tudo do melhor jeito possível, não era? Não, não era.

Eu nunca fui modelo de beleza. Sempre me mantive oculta nas sombras do colégio porque a pessoa que morava dentro de mim pedia para ser assim. Invisível. Intocável. Paralelamente, havia um lado que queria sair e provar o mundo, admirar suas cores, se deliciar com os sabores, enlouquecer com os aromas, toques e sensações inebriantes. Era esse lado que, ao fazer de tudo para se libertar, acabava me atingindo bem de leve, como se eu estivesse ligeiramente alcoolizada. Trôpega pela minha ilusão, eu me convencia de que tudo o que eu queria era o melhor para mim, que todos os meus amores errados eram os certos e que se eu me dedicasse de verdade, seria correspondida. Seria feliz.

Acho que posso dizer que eu achava que minha felicidade dependia de encontrar alguém – simplesmente porque ficar na minha própria pele, sozinha, era intolerável. E hoje eu olho para trás e penso: nossa, eu era mesmo intragável. Insossa, sem graça e sem ter a menor ideia do que fazer com minhas perspectivas.

Quando eu me decepcionava, achava que não era correspondida por fatores meramente estéticos e superficiais. Ninguém nunca me disse isso abertamente, mas eu sabia, dentro de mim, que era verdade. Por qual outra razão seria? Eu e meus pretendentes -  nem vou entrar em detalhes de como eu estava terrivelmente errada com aquelas escolhas – conversávamos, nos dávamos bem… eles só não me queriam porque eu não era atraente. Bem, podia ser mesmo por isso – as fotos daquela época estão aí para confirmar. Mas havia algo de podre em mim que eu demorei mais uns bons três anos para descobrir. E nem todas as investidas, indiretas e segundas intenções do mundo fariam com que eu e ele déssemos certo.

Eu era uma fraude. Uma fraude acidental, uma armadilha que eu mesma havia preparado. Por medo de ser julgada e de receber olhares tortos, eu me escondia em alguém que não era eu. Por medo de tantas coisas eu acabei invertendo tudo e me inventando; eu pisava em ovos, pensava muito antes de falar e não sabia aproveitar nada, nem um raio de sol quente e vigoroso batendo no meu ombro.

É por isso que eu e ele não demos certo. Porque, enquanto ele já era uma versão chata e quebrada de si mesmo, eu ainda tinha que me descobrir e fazer melhorias para aproveitar as maravilhas de quem sou. Eu ainda sentia meu estômago girar só pelo toque de uma pessoa que eu julgava ser especial. A questão é que hoje eu não julgo mais. Hoje, eu sei quem é especial e sei que só uma pessoa tem esse poder de me fazer ficar adoravelmente nervosa.

O cara da escola era bonitinho, simpático e até que sabia se vestir. Mas eu sempre preferi o que está escondido, louco para ser revelado, a uma beleza jogada na cara.

Trocar o certo pelo incerto

Hoje percebi que boa parte das crônicas refletem um lado meu que eu gosto de esconder para boa parte das pessoas. Ou um lado que eu acho que consigo esconder. Eu ando lado a lado com um pessimismo muito grande. Ele é como se fosse minha sombra… e, quando tudo fica escuro, ele toma forma, fica forte e me envolve. Eu queria dizer que é num abraço apertado e carinhoso, mas acho que posso riscar a última palavra e substitui-la por angustiante. 

Isso sempre acontece quando as horas se arrastam e fazem toda e qualquer coisa ser a pior coisa do mundo.

Nesses momentos eu tenho vontade de fazer as loucuras mais inimagináveis. Já cogitei bater meu carro contra um poste, atirar o computador pela janela, queimar todos os meus livros, apagar tudo o que eu já escrevi, encontrar pessoas que merecem ouvir uma boa verdade e, depois, me recolher em uma bolinha na cama macia. Missão cumprida. Eu daria fim a tudo o que eu gosto – quase uma autoflagelação para ver se o pessimismo me sufoca de tal modo que eu perceba, à força, que as coisas não são bem por aí. A prova do crime que me faria pensar “parabéns! E o que você ganhou com isso?”.

É, eu queria muito ser louca de vez em quando. Trocar o certo pelo incerto, acabar com tudo o que eu gosto em um ataque de fúria contra todas as minhas fraquezas e ver se eu consigo lidar com esse tal recomeçar. Essa palavra assusta… é difícil abandonar o que já está construído, mesmo que possa ruir a qualquer momento. É por isso que eu explodo. Porque eu tenho todo esse pessimismo vivendo dentro de mim. E quando eu tenho vontade de gritar é como se tudo fizesse sentido, mesmo que por três minutos – a duração das minhas músicas preferidas e que sempre dizem muito sobre mim.

Mas eu nunca faço isso. Eu tenho medo do resultado. Eu tenho medo de tantas coisas. Às vezes, confesso… eu tenho medo de mim.

Encerro o texto sem revisão e pensando que, quando eu tornar a lê-lo daqui a alguns dias, vou concluir que tudo não passou de uma TPM muito intensa. Será mesmo?

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